Com apoio da Embaixada da Suécia em Brasília a diretora e roteirista Liv Elf Karlén recentemente visitou o Brasil para realizar um workshop para profissionais da área de teatro durante o festival de teatro internacional MitSP que chegou ao seu quinto ano. Evidentemente aproveitamos a ocasião e conversamos um pouco com ela para saber mais das suas impressões durante a semana em São Paulo.

Conte-nos brevemente quem você é e um pouco sobre a sua história, para aqueles que não te conhecem!

Sou diretora de teatro e roteirista e desde 2006 tenho trabalhado com algo que eu chamo de métodos criativos de normas da concepção e organização. Comecei o meu trabalho dentro do mundo teatral criando um grupo feminista de teatro livre chamado “Teatro Lacrimosa”. Em 2008 eu e Lacrimosa realizamos um projeto de pesquisa e escrevemosm um manual sobre como podemos trabalhar com a conscientização do gênero no processo de concepção.  Desde então tenho lecionado em cursos de teatro paralelamente com as minhas atividades artísticas e tenho realizado workshops com grupos teatrais e instituições sobre como uma perspectiva crítica das normas pode desafiar e contribuir para a qualidade artística e para os processos artísticos para que o teatro seja uma força de mudança na sociedade.

Seu workshop durante a MitSP  tratou da desnormatização dos estereótipos no mundo teatral a partir de uma perspectiva de gênero e você criou um método para categorizar como percebemos a sexualidade, raça e gênero dentro do mundo do teatro, mas também fora dele.

Conte mais sobre o seu método.

Teatro e arte são lugares com um poder enorme de ou fortalecer ou desafiar as normas, percepções e as ideias acerca de identidades diferentes: como as pessoas são retratadas, como imaginamos a interação entre elas, o que considerado mais valioso ou o que consideramos normal. Muitas escolhas de como nós artistas retratamos essas estruturas de poder são feitas inconscientemente e sem reflexão. O objetivo do meu método é de trazer visibilidade para tais normas subjacentes e inconscientes e usar o nosso conhecimento sobre poder para fazer arte melhor, desafiar estereótipos e em vez disso contar retratos complexos e questionar injustiças.

Por que justamente você foi convidada a participar?

Na verdade foi mais por coincidência. Estava trabalhando no The Freedom Theatre, um teatro e escola de teatro em Jenin na Cisjordânia, Palestina. Lá realizei um workshop  sobre gênero, igualdade, poder e retratação e encontrei Maria Fernanda Vomero, curadora do programa pedagógico da MiTSP. Ela participou do meu workshop e achou que os métodos seriam interessantes a aplicar no Brasil também. Estou muito contente que conseguimos realizar esta troca de experiências.

Como seu workshop foi recebido no Brasil?

O interesse foi enorme pelo workshop e tivemos participantes não só do Brasil, mas também da Cuba, do Chile e da Colômbia. As pessoas tinham assuntos do coração e questionamentos que fizeram com que procurassem este workshop. Questões sobre perspectivas de transgênero, ativismo feminista, classe, antiracismo, sexualidade etc. Foram trocas de experiências muito interessantes e muitas pontes entre questionamentos políticos e lutas, onde as pessoas podiam enxergar estratégias conjuntas, semelhanças e diferenças. Tivemos uma semana muito divertida e com um clima incentivador! Para mim pessoalmente foi extremamente interessante trabalhar com métodos que eu tenho aplicado em diferentes circunstâncias na Suécia por tanto tempo num contexto totalmente diferente. Foi fascinante ver tantas semelhanças em discussões políticas e artísticas que existiam mesmo quando as circunstâncias e questões eram tão diferentes.

Quais foram as suas impressões da visita? Você já tinha visitado o Brasil antes?

Foi a primeira vez que eu visitei o Brasil e fiquei totalmente apaixonada por São Paulo. O que me comoveu mais foi a enorme generosidade das pessoas e que são tão sociais. São Paulo passou-me a impressão de ser um lugar tão dinâmico com tantas pessoas trabalhando duramente para mudanças de circunstâncias muito difíceis.

Ultimamente temos lido sobre as consequências dos escândalos surgindo pela campanha #metoo no palco de teatro na Suécia. Como está o palco de teatro sueco visto duma perspectiva de gênero, você acha?

Considero os protestos dentro do setor cultural sueco um sinal de saúde. Demonstra que fenômenos e estruturas de poder que estavam invisíveis, discriminação e violações que foram normalizados hoje em dia são inadmissíveis. O fato de que tanta gente se uniu durante os protestos #metoo aponta que algo fundamental mudou, eu acho.

E se comparar o palco de teatro sueco com o de outros países?

Difícil responder uma pergunta tão ampla… Durante a visita em São Paulo e a participação na MiTSP eu refleti bastante sobre o papel do teatro em diferentes ambientes da sociedade. Tenho trabalhado durante muito anos com: quais questões, histórias e corpos devem ter acesso aos ambientes mais sofisticados e quais normas e imagens são transmitidas dos ambientes artísticos. Durante a MiTSP fiquei mais comovida das obras e trabalhos que aconteciam em público, em vários lugares da cidade e em outros contextos que as salas de teatro tradicionais. Tratava-se de projetos onde teatro e arte foram usados como ferramentas concretas para unir pessoas em volta de questões que consideram importantes e como uma ferramenta para as pessoas sentirem força, orgulho e contarem das suas vidas. Isso é algo que levo para casa comigo e quero usar para continuar o trabalho na Suécia. Acho que o teatro precisa estar em constante movimento e trocar as suas plataformas (este tipo de mudança no setor já tem ocorrido antes) para manter a sua relevância e para ser um poder democrático na sociedade.

Quais são os seus planos para o futuro?

Agora em breve eu vou ser diretora de uma obra para crianças e seus adultos sobre poder no dia a dia. Também estou trabalhando com um grande projeto educativo para tratar de métodos criativos de normatividade para tratamento igual e igualdade no setor de construção – tudo extremante divertido e interessante.

Liv – muito obrigado pela entrevista e boa sorte no futuro!

Fotos: Guto Muniz

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